Acordei quando comecei a sentir um enjôo no estômago, acredito que seja por causa das bebidas de ontem. Abri os olhos com muita dificuldade e coloquei a mão por cima deles tentando evitar que sol que vem da janela os incomode. Olhei para o chão e minha calcinha e meu sutiã estavam jogados.
- Caralho, então... – sussurrei para mim mesma, surpresa.
Então não foi um sonho, eu e Matt realmente transamos?
Olhei para o lado e não tinha ninguém deitado comigo. Respirei fundo. Fiquei de pé um pouco tonta e dei passos devagar, vestindo a lingerie logo em seguida.
Não acredito que fui capaz de fazer isso. Eu não presto!
Sabe nos filmes, quando uma garota liga pra melhor amiga dela e diz “a noite passada foi um erro”? É exatamente isso que se encaixa na situação que estou vivendo agora.
Merda, o Matt estuda na mesma faculdade que eu, com que cara vou vê-lo na segunda feira? A sorte é que não somos da mesma área, então será difícil esbarrarmos nos corredores. Coloquei o vestido e dei um gemido baixo. Minhas pernas doem e minha vagina arde muito.
O engraçado é que ontem não senti dor nenhuma, acho que é normal as consequências só aparecerem depois. Pus o salto alto e me sentei na beirada da cama. Arrastei-me pela mesma e peguei a bolsa, discando o numero de Lilly no iPhone logo após. Ela atendeu no terceiro toque.
- Lilly, é a Anastasia...
- Ah, eu sei, tenho seu numero na lista de contatos – sua felicidade era aparente, mas eu não conseguia me importar com aquilo. Tinha um problema melhor para resolver.
- Preciso desabafar.
- E eu preciso saber o que você fez ontem. Caramba, do nada você sumiu da festa, o Justin foi embora sozinho, e uma tal de Barbara me disse que Matt foi conversar com você num quarto e não voltou mais.
- Pois é, eu... – suspirei. – Está tudo muito confuso agora, só você será capaz de me entender. É sério, não estou me sentindo bem.
- Isso é normal – disse tranqüilizando-me.
- O quê? – Perguntei, realmente não entendi.
- Ana, semana retrasada tivemos provas e estudamos como verdadeiras escravas. Essa festa de Ryan só serviu para que tivéssemos uma noite de liberdade, sacou?
- Si-sim... – falei baixinho. – Você pode vir me buscar?
- Por que não pede a Justin?
- Ele disse que era para Matt me levar do jeito que eu tinha dito quando discutimos no jardim, não sei se lembra disso...
- Claro que lembro. Depois do copo que te dei não bebi mais, Ry não deixou – riu e ri junto.
- Beleza. Vou te esperar, ta bom?
- Uhum, fica do lado de fora que já to chegando – um ar de alívio tomou conta de mim.
- Obrigada, você é a melhor amiga do mundo! – e dei o primeiro sorriso verdadeiro desde que acordei. Ela desligou a ligação, carinhosa do jeito que é, e me levantei mais uma vez.
Passei pela cozinha e a única coisa que via eram copos espalhados, garrafas vazias no chão, limões dentro da pia, algumas manchas nos tapetes. Aposto que a mãe de Ryan vai enfurecer quando ver isso. Cheguei na sala e tinham três casais esparramados em qualquer canto, dormindo como bebezinhos, mesmo com tanto desconforto. Desviei de cada um deles e abri a porta. Tinham algumas pessoas dentro da piscina fazendo um tipo de resenha. Barbara era uma delas, e quando me viu correu para perto de mim. Olhei-a e me surpreendi com seu abraço, que molhou um pouco meu vestido.
- Ai, desculpa, tinha me esquecido que ia fazer isso em você! – Ela apontou para o mesmo e fiz um sinal com a mão como se dissesse “sem problemas”. – E aí, como foi a noite de ontem? – Disse cheia de expectativa.
- Boa – dei de ombros. Mal a conheço, não posso chegar e dizer “ah, dei pro seu amiguinho Matt, acredita que ele não precisou me conquistar nem por 24horas para fazer isso acontecer?”
- Só boa? Poxa, eu esperava mais – ela fez biquinho. Soltei um sorriso.
- É. Agora estou meia enjoada e a única coisa que quero é ficar deitada o dia inteiro assistindo qualquer filme.
- Então se eu te convidar pra um churrasquinho que vamos fazer 17horas, você não vem?
- Sei lá, se eu melhorar venho dar um oi.
- Eu ficaria feliz se viesse. Sabe, gostei de você, nunca tinha encontrado uma garota que aceitasse mostrar os seios sem se importar com os garotos em volta e esses detalhezinhos – riu, pervertida.
Como é que é? Espera, eu não me lembro disso.
- Nó-nós pulamos na piscina?
- Sim, e só de calcinha – o sorriso safado ainda estava em seu rosto. – Caramba, você não lembra? – Arregalou os olhos, brincalhona.
- Claro que lembro, imagina, não dá pra esquecer algo assim – fingi e tenho quase certeza que ela acreditou.
Lilly chegou com sua Mercedes Benz e buzinou, chamando minha atenção.
- Preciso ir, minha carona está aqui – apontei para o carro e ela assentiu com a cabeça. – Nos vemos mais tarde, eu acho – fiz uma careta.
- Uhum. Juízo e melhoras – fez um toque e saiu, voltando para seus amigos.
Recuperei o fôlego me preparando para o sermão que Lilly provavelmente vai me dar e abri a porta de seu carro, sentando-me no banco do passageiro e colocando o cinto logo em seguida. Beijei sua bochecha brevemente e encostei-me completamente no assento, finalmente relaxando.
- Amiguinha nova, é? – Falou num tom ameaçador. Ri.
- Não começa, hein. Você sabe que é única.
- Sei mesmo, não tenho medo de novatas – deu de ombros.
- Convencida – falei quase num sussurro, estou muito muito cansada.
- Ana, você vai me dizer tudo o que aconteceu ontem, não é? Não sei da onde você tirou coragem quando decidiu entrar na piscina sem sutiã. Eu falei tudo aquilo de mostrar seu outro lado, e você levou meu conselho a sério mesmo. É a primeira vez que faz isso – riu, debochada, e virou para esquerda com destino a meu lar doce lar.
- Posso ser sincera com você?
- Sempre.
- Eu não me lembrava disso – ela levantou as duas sobrancelhas tentando esconder seu espanto.
- Do que se lembra?
- De quando chegamos, da batalha de licor com Justin, dele mostrando-se no meio da rua, de voltarmos, eu conversar com Matt, eu e ele fomos dançar e depois disso...
- Depois disso... – ela disse, esperando minha continuação.
- Não sei como vou dizer uma coisa dessas – passei os dedos pelo cabelo fazendo um coque alto. Ele está volumoso e horrível, todo embaraçado.
- Deixa de draminha e conta de uma vez.
- Justin veio com um papo de experiência nova, blábláblá, e nos beijamos.
- ESPERA, VOCÊS TRANSARAM? – Ela freou o carro e nós duas fomos empurradas para a frente com a pressão. A encarei.
- NÃO, CALMA! E DIRIGE ESSA BOSTA DIREITO SE NÃO PEGO UM TÁXI, CACETE! – Gritei. Ela suspirou de alívio.
- Pô, melhor assim. Seria uma loucura se isso acontecesse. Vocês são amigos a tanto tempo e isso poderia estragar a rela...
- Mas de qualquer forma eu não sou mais virgem, Lilly – ela engoliu seco.
- Agora é você que está me deixando confusa. Que história é essa? – Eu ia começar a falar quando ela me interrompeu no mesmo segundo. – Não, não. Para evitarmos que eu bata em algum poste ou coisa parecida com sua próxima confissão, é melhor esperarmos para quando estivermos acomodadas num lugar confortável e seguro, onde eu não possa nos matar sem querer.
Concordei sem dizer mais nada e cruzei meus braços, olhando para as paisagens de sempre que apareciam na janela. Como tudo teria terminado se Justin e eu tivéssemos conseguido transar? E nossa, sexo com Matt é com certeza a 1º coisa na minha lista de “melhores experiências da minha vida”. Ele foi demais. O que mais me impressionou é que eu não sangrei e... O que eu estou pensando? Me sinto uma vadia. Matt com certeza acha que sou uma vadia. Eu dei pra ele completamente bêbada dentro de um quarto de hóspedes, e disse isso tudo pra ele antes de fazermos qualquer coisa. Ele tirou minha virgindade porque eu praticamente implorei! Puts, com certeza ele vai espalhar isso pra faculdade inteira. Estou oficialmente fodida. Mas ainda há esperança. Lembro dele dizendo que é tipo poucos amigos, se fecha no seu círculo e etc. Estou com medo.
- Você sempre se importou demais com o que as pessoas pensam sobre você, Anastasia. Devia parar com isso – Lilly disse do nada como se lesse meus pensamentos, enquanto estacionada a Mercedes na calçada. Arregalei os olhos, olhando-a.
- Ã?
- Sei que quando você encara o nada está analisando tudo o que fez nas horas anteriores. Se aconteceu é porque tinha que acontecer, não importam as circunstâncias e muito menos o lugar – abrimos as portas para sairmos. – Ah, e por falar nisso, minha noite foi bem agradável. Devo parte dela a você – sorriu, e não preciso de dicas para saber que está falando de Ryan. Sorri fraco, com os lábios.
Nós entramos em minha casa, mas antes eu demorei séculos para encontrar a chave na minha bolsa e finalmente conseguir encaixá-la na fechadura. Quase saiam faíscas das orelhas de Lilly, ela odeia esperar. Fui direto para a cozinha e bebi um remédio para enjôo. Ela, como sempre, digitando em seu BlackBerry. Bufei. Chamei-a e fomos para meu quarto, tomei um bom banho e pus um pijama, sentando-me na cama quando já havia terminado tudo. Ela foi ao banheiro, pegou minhas roupas espalhadas e colocou-as para lavar, em seguida voltou e fechou a porta de meu quarto, sentando-se na minha frente. Encarou-me.
- Agora me conte tudo. Antes de mais nada quero que se lembre que sou sua melhor amiga e meu papel principal é te ouvir, te ajudar e nunca te julgar. Não se esqueça disso...
Não consegui me segurar e minha única reação foi afundar minha cabeça no ombro de Lilly e começar a chorar. Sim, chorar. Tinha tudo misturado: arrependimento, dor, mágoa, culpa. Eu estava grata com o que tinha feito, mas ao mesmo tempo não sabia se era o certo.
Como sou estúpida!
- Anastasia, o que aconteceu? Me diga, alguém machucou você? O garoto com quem transou foi muito bruto? – Ela alisava meu cabelo, aconchegando-me, e sua voz era doce.
- E-eu... eu bebi muito, Lilly. Eu não deveria ter transado com ninguém. Na hora em que Justin pegou meu corpo de bebida eu tinha que ter dado a ele e vindo para casa. Eu nem queria ir naquela festa quando ele me chamou! – Falei e os soluços saiam mais de dentro da minha garganta, e o choro foi ficando cada vez mais intenso. Ela suspirou.
- Olha, você sempre faz tudo tão certinho. Às vezes é bom dar uma estrapolada, fazer algumas coisas por impulso.
- Eu perdi minha virgindade com o Matt! O garoto que você viu me olhando naquela maldita cozinha. E o pior é que ele não quis de imediato, eu fiquei insistindo. Sou uma vadia.
- Hey, não fala tanta besteira! – Ela colocou as mãos em meu rosto, obrigando-me a olhar para ela. Passou os dedos delicadamente embaixo de meu olho direito, secando as lágrimas que ainda caíam. – Uma hora isso ia ter que acontecer. E sinceramente? Estou orgulhosa de você.
- Orgulhosa por eu ser uma puta?
- Não, bobona. Orgulhosa por você ter feito, pela primeira vez, uma coisa sem pensar. Dane-se se era sua virgindade, a única coisa que mudou dentro de você foi seu hímen que agora está rompido. Que falta ele faz? – Ela franziu as sobrancelhas como se estivesse falando algo óbvio. – Pense bem, você ainda vai transar com vários garotos, e a tendência é que melhore cada vez mais. Matt é um garoto bonito, legal, e pelo que vejo ele foi gentil com você na medida certa – sorriu, apertou minhas bochechas e ri segundos depois.
- Vendo por esse lado é até maneiro.
- Se você quiser a gente pode falar com ele na segunda feira, quando nossa aula acabar. Você contou a ele que era virgem? – Assenti e me senti corar. – Então pode ter intimidade suficiente pra pedir pra que ele não conte isso para ninguém. Quer fazer isso?
- Aham, me daria certa segurança – dei de ombros, secando por completo meu rosto. Sua expressão ficou melhor. – Obrigada por sempre estar perto de mim. Eu amo você – a abracei e senti suas mãos acariciarem minhas costas.
- Eu também amo você, cachorra.
- Agora eu quero saber tudo que a senhorita e o Ryan fizeram ontem. Rolou alguma coisa?
- Bom, não fomos tão atrevidos como você mas... – dei um tapa leve em seu ombro e ela riu. – Tô brincando. Nós ficamos, e ele até me apresentou pra alguns amigos.
E pelo resto da manhã eu consegui deixar minha consciência um pouco mais limpa e sossegada, mas preciso falar com Justin e saber se está tudo bem. Ele pode esperar, então deixo isso para depois e decido escutar o resto das histórias de Lilly.

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