- Pra casa? - Respondi como se fosse óbvio. Ele revirou os olhos, apoiando a mão na porta.
- Pedi pra você me contar o que seus pais decidiram depois da briga, você esqueceu? - Ele respirou fundo, estava ofegante. Ri.
- Ah, é. Desculpa. Você veio com sua Range Rover hoje?
- Não, Christian me deu carona. Se importa de me deixar em casa?
- Hm...
- Eu já sabia que sim, afinal, é a garota mais incrível desse lugar.
Justin jogou a mochila no pequeno banco de trás, e num pulo de ginasta sentou-se no bando do carona. Colocou o cinto e me olhou, esperando que eu começasse a falar.
- Como sempre atrevido, não é?
- Algumas coisas nunca mudam, minha cara - ele deu um sorriso engraçado e levantou a sobrancelha direita, ainda me encarando. - Ansiosa pra festa?
- Agora um pouco menos... Esbarrei com Chaz no pátio e ele perguntou se eu ia - Justin bufou, me ouvindo continuar falando. Tirei o carro lentamente da vaga e segui para a saída, até chegarmos na rua movimentada.
- Qual o problema nisso? Vocês já terminaram várias vezes, Anastasia. Você não pode deixar de viver por causa dele.
- Lembra-se de quando você e a Caitlin terminaram? Você dizia exatamente o contrário - olhei pra ele rapidamente e voltei a prestar atenção na estrada.
- A diferença é que eu a amava. E você, ama o Chaz? - Suspirei.
A verdade é que não. Não o amo. Gosto dele, de sua presença, amizade... Mas amor é demais.
- Você sabe a resposta.
- Então.
- O que sentiu quando ela te traiu?
Justin engoliu seco. Ele odeia falar sobre isso. Foi uma época difícil pra ele, e todos nós ficamos pelo menos três semanas ouvindo ele choramingando enquanto Caitlin ficava andando pelas ruas de Nova York ao lado do namorado bombadão. Justin ficou arrasado, nunca o vi tão mal.
- Você sabe a resposta.
Sorri de lado. Ele sempre sabe se desviar de um assunto. Olhei para ele mais uma vez.
- Sei. Mas não fica desse jeito, um dia você vai encontrar alguém que te ame, e te mereça. Você é maravilhoso. Deus tá guardando uma pessoa maneira... E principalmente que aguente sua chatice, porque olha - levantei as sobrancelhas como se estivesse mostrando a intensidade da palavra e Justin ficou emburrado. Parei no sinal, me inclinei e dei um beijo demorado na bochecha dele. Ele riu por pelo menos um minuto.
- Bobona. Mas agora me diz, o que seus pais vão fazer? Se separar? - Tossi, e ele deu tapinhas nas minhas costas.
- NEM BRINQUE COM ISSO!
- Tá bom, tá bom, desculpa - ele colocou as mãos pra frente como se estivesse se defendendo. - Diz logo.
- Papai vai levar minha mãe pra ficar duas semanas em Londres e...
- Espera, você vai ficar duas semanas sozinha? É isso? - A voz de Justin aparentava expectativa e mil coisas mais. Ele com certeza está tendo as mesmas ideias que tive hoje de manhã.
- Sim, é isso. Mas não se encha de esperanças porque a casa é cheia de câmeras.
- E daí? É só alguém sumir com as fitas de gravação.
Incrível o modo como temos as mesmas soluções para nossos problemas. Nascemos para sermos melhores amigos e não tenho nenhuma duvida disso. Conversamos mais um pouco, estacionei o carro na calçada, troquei mais algumas palavras com ele e entramos em nossas casas. Fui direto pra cozinha porque estava morrendo de fome, só tomei uma Coca diet no intervalo da faculdade. Abri a geladeira e peguei um potinho com frutas e leite condensado.
- Nada melhor - sussurrei para mim mesma colocando um pedaço de laranja totalmente suculento na boca.
Subi os degraus lentamente tomando cuidado para não sujar minha blusa e, andando pelo corredor, percebi que a porta do quarto dos meus pais estava aberta. Bati duas vezes e ela respondeu:
- Entre.
Fui até ela e coloquei a mochila num cantinho, sentei-me na beirada da cama e voltei a comer.
- E aí, ajeitando as coisas pra viagem?
- Sim - ela respondeu com os olhos alegres. - Acredita que seu pai não me contou pra onde vamos? Ele disse que tem que ser surpresa - ela fez biquinho enquanto dobrava um short jeans e em seguida o colocou dentro de uma mala Louis Vuitton. Permaneci encarando-a.
- Tenho certeza que vai gostar.
- Então você sabe? Ah, por favor, me conte! - Ela colocou as mãos nas minhas coxas como se aquilo aumentasse a pressão e fosse algo que me faria falar imediatamente. Ri me levantando e mostrei a língua.
- Digamos que eu saiba, mas vamos fingir que não.
- Ah, qual é filhinha... Você sabe o quanto mamãe te adora, não é? Quer vê-la se matando de curiosidade durante quase 15horas de voo? - Ela foi se aproximando de mim devagar mexendo os dedos.
Ah, não. Ela não vai fazer isso.
- Mãe, eu não vou dizer nada, o papai pediu... Ele quer te surpreender, vai ser melhor assim - supliquei colocando o potinho com frutas em cima da pequena mesinha ao lado da cama quando de repente minhas costas chocaram contra a parede, ou seja: não tenho mais pra onde correr.
- Se continuar nessa sabe que atitude vou tomar, certo?
- Mamãe, por favor... - Fiz biquinho, já começando a sorrir. - MÃE!
Gritei quando senti seus dedos dançarem por cima da minha barriga, lugar onde sinto mais cócegas. Ela me jogou na cama e continuou a me torturar, dessa vez com a mão direita em meu pé, e a esquerda ainda se movimentando pela minha barriga. Subindo e descendo várias vezes. Lágrimas engraçadas desciam pelos meus olhos. Eu gargalhava tão alto que cheguei a ficar sem ar.
- PARA, MÃE, POR FAVOR, PARA! - Falei em meio ao desespero, abafos, suspiros, mais risos. Como é bom sentir ela feliz de novo.
Depois de um pequeno tempo ela percebeu que eu não iria estragar a surpresa do papai e parou, sentando-se ao meu lado.
- Preciso ver mais pontos fracos seus - ri com o comentário dela, ficando na mesma posição que ela.
- Tenho certeza que vai se apaixonar por todos os cantos que ver naquele lugar - ajeitei meu cabelo fazendo um coque em seguida. Ela passou o braço pelo meu pescoço e beijou minha testa, fazendo-me fechar os olhos.
- Espero que essa viagem faça seu pai voltar a ser quem era. Quem sabe quando voltarmos não passamos mais tempo juntos, nós três?
- Seria legal - encostei a cabeça no ombro dela, sentindo um carinho gostoso em mechas do meu cabelo. - Sinto sua falta.
- Eu sei, querida... Me desculpe por estar mudando, também. Você nunca vai estar sozinha, tá bom? Jamais se esqueça disso - ela apertou a pontinha do meu nariz me fazendo sorrir mais uma vez, e fiquei de pé devagar. Dei-lhe um selinho rápido.
- Amo você, e quero te ver feliz.
- Digo o mesmo pra você, meu amor. Agora vá tomar um banho e pôr uma roupa limpa, vamos almoçar no La Molle.
- EBA, ARROZ COM MOLHO E MEDALHÃO! - Comemorei com as mãos pra cima, recolhi dali tudo que era meu e corri para me arrumar ouvindo risadas baixas de mamãe.
O almoço foi maravilhoso, eu e minha mãe conversamos sobre coisas diferentes e legais, e não fazíamos isso a muito tempo. Ela não parava de elogiar minha roupa, disse até que eu deveria largar a arquitetura e começar a cursar moda. Eu só fiz um coque simples em meu cabelo e deixei uma parte solta. Acho que não estou tão largada pra uma garota comum de 18 anos. Quando terminamos a comida, fomos para o estacionamento do restaurante e entrei no carro. O iPhone começou a tocar.
- Amiga, tô na frente da sua casa, cadê você? - Disse Lilly num tom pra baixo. Arregalei os olhos.
Puts, esqueci dela!
- Eu saí pra almoçar com a mamãe. Me espera aí que já tô chegando.
- Aproveita e pede a ela o cartão de crédito, vamos pro shopping comprar um vestido pra irmos a festa mais tarde - ri. Quando Lilly fica empolgada com uma coisa chega a ser chato por ter tanta ansiedade.
- Pode deixar. Senta aí na calçada e fica no aguardo, monamour.
- Ok. Beijo.

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