P.O.V Anastasia.
Droga, papai e mamãe estão brigando de novo. Não aguento mais isso.
- Carla, você está entendendo tudo errado, ela é nova na empresa, quer minha ajuda para saber organizar alguns projetos no computador. Ela não sabe nada dessa área.
- Então por que não contratou uma mulher que saiba computação? Cada dia que passa suas justificativas ficam piores. Acho melhor pensar um pouco mais - disse ela, num tom irônico.
- Queria saber porque ultimamente você desconfia tanto de mim - ele bufou.
- Nossa, tem certeza que não sabe? Talvez porque você fica em casa dois dias na semana, por pelo menos uma hora. E no resto dos dias tem golf com amigos, tênis com filiais da empresa ou reuniões importantes no Starbucks. Que importância, meu querido! - Ela bateu palmas, ele a observava atentamente.
Me levantei e coloquei o olho pela pequena brecha que tinha na porta do quarto deles. Papai afrouxou a gravata e se sentou na cama, passando a mão calmamente pela testa.
- Como você acha que conseguimos tudo o que temos, Carla? Não é Deus que me dá, preciso trabalhar pra isso.
- EU SEI, MAS SINTO A PORRA DA SUA FALTA! VOCÊ É MEU MARIDO, NÃO SE LEMBRA? - Ela mostrou o anel em seu dedo anelar da mão esquerda, esfregando na cara dele. - PROMETEMOS UM AO OUTRO QUE NOS APOIARÍAMOS ALÉM DE TUDO. VOCÊ ASSINOU. SABIA O QUE IA ASSINAR, SUA LETRA ESTÁ NAQUELE CONTRATO! - Ela está se segurando para não chorar e isso parte meu coração. - TODOS OS DIAS ANTES DE DORMIR ME LEMBRO DE QUANDO VOCÊ CHEGAVA EXATAMENTE AS OITO E SE SENTAVA NA MESA AO MEU LADO, JUNTO COM ANASTASIA. Falávamos sobre como foi nosso dia, víamos algum filme, provocávamos nossa filha. Você sempre me ajudou a pôr ela na cama - mamãe não conseguiu mais se conter e deixou algumas lágrimas caírem. Papai a observava atentamente, sem nenhuma reação. Suspirou. - Quero sentir seu braço em volta de mim quando formos dormir, quero saber que você está perto, quero ficar arrepiada com sua respiração no meu pescoço. É pedir demais? É querer demais ter meu marido mais dias da semana? - Ela colocou a mão no rosto. Mamãe odeia chorar na frente de qualquer pessoa.
Papai tirou o paletó, o colocou em cima da cama e se levantou. Mamãe continuava respirando fundo e soluçando como uma criança. Ele a abraçou pela cintura e automaticamente ela fez o mesmo em sua nuca. Um abraço apaixonado, aquele abraço gostoso depois de uma briga. Abraço que fala "desculpe pelas minhas palavras, você é importante pra mim e eu te amo". Suspirei me afastando e voltei para meu quarto.
- Ainda bem que essa briga terminou assim - suspirei para mim mesma, me jogando na cama e ligando a TV.
Meu iPhone começou a tocar. "I'm gay, I'm gay" dizia o toque. Toque especial que coloquei pro meu melhor amigo, Justin. Não consegui me conter e dei um sorriso enorme até atender.
- E aí, gay - falei, abaixando o volume da TV.
- E aí, lésbica - ele respondeu como se aquilo me ofendesse. Fingi que não ouvi. - Tá tudo bem aí? Ouvi seus pais brigando.
Justin e eu somos vizinhos. Ele mora ao lado, nossas janelas dão uma de frente para outra. Nos conhecemos desde que eu tenho três anos, e praticamente nunca nos desgrudamos. Só namoramos quando aprovamos a pessoa, e isso é legal demais. Ele é tipo um irmão.
- Sim, tudo bem. Dessa vez minha mãe não aguentou e caiu aos prantos.
- Nossa, sinto muito - ele disse com a voz um pouco triste. - Mas vale lembrar que hoje é quinta feira, o que traz uma coisa melhor ainda: amanhã é sexta feira!
- Ora, não me diga? - Falei de um jeito sarcástico e tenho certeza que ele fez cara de bravo. Ri - Ok, desculpa. Mas qualquer um sabe disso, é a ordem da semana, meu amor.
- Valeu, espertona. Agora é sério. Amanhã tem uma mega festa na casa do Ryan e quero que você vá comigo.
- Não acho que é uma boa ideia. Chaz vai estar lá e, você sabe...
- E daí que vocês terminaram? Você ainda pode ser minha acompanhante.
- Justin, me deixa pensar e eu te...
- Qual é, Ana? Vai me deixar na mão mais uma vez?
- Caramba, isso é chantagem emocional! Sabe fazer isso direitinho - me levantei, emburrada.
- Você ainda não viu nada. Vai na janela.
Levantei uma sobrancelha e andei até lá. Abri a cortina e em seguida a janela, e quando olhei pra frente Justin segurava seu celular com a mão direita. Sorri de lado. Ele fixou os olhos nos meus e fez biquinho dengoso, depois sorriu.
- Argh, tudo bem, eu vou - revirei os olhos, fechando a cortina novamente e ignorando a presença dele a poucos metros de mim. - Mas nada de tentar fazer eu ficar com ele, combinado?
- Combinado, chefa - bufei.
- Babaca.
- Ridícula.
- Idiota.
- Estúpida.
- Escroto.
- Realmente, tenho dois sacos. Quer vir aqui ver? O amigo deles é grande! - Ele riu, convencido. Fiz cara de nojo.
- Cala a boca! - Justin gargalhou.
- Adoro te deixar brava.
- Eu sei.
- Então, é isso. Te vejo na faculdade?
- Sim.
- Tá... Boa noite, dorme bem. E se acontecer mais alguma coisa com seus pais me avisa que dou uma passada rápida aí.
- Uhum, obrigada. Beijo - e desliguei.
Tirei o lençol da minha cama e peguei o cobertor no armário, o espalhei pelo colchão e deitei na mesma, encostando a cabeça no travesseiro, relaxando de um jeito que não faço a algum tempo. De repente alguém deu dois toques na porta e me virei para ver quem é.
- Pode entrar.
- Oi, filha. Vim ver como você está - papai entrou em passos lentos e se sentou na beirada da cama, com cuidado. Agora está apenas com uma bermuda de seda, bem confortável. Sorri de lado, olhando para ele.
- Bem, e o senhor?
- Também. Não pense que não vi seu olhinho curioso na brecha da porta do meu quarto enquanto eu e sua mãe brigávamos.
- Mais uma vez - falei baixinho.
- É, mais uma vez... - ele repetiu minha fala, como se falasse consigo mesmo. - Por isso eu e ela decidimos fazer uma pequena viagem.
Me sentei rapidamente na cama com os olhos brilhando, um sorriso de orelha em orelha no meu rosto. Mal posso acreditar!
- Você está brincando? - Ele riu.
- Claro que não, poxa. Vimos que precisamos de um tempo sozinhos, eu longe da empresa e ela longe da sua avó dizendo que preciso fazer isso e aquilo - ele fez uma cara engraçada e ri mais ainda. - Vamos para Londres, sua mãe sempre quis conhecer aquela cidade, apesar de eu só achar o tal relógio grande legal... - Rimos.
- Ela vai ficar muito, muito feliz! Isso é demais!
Me joguei nele enquanto ele acariciava minhas costas. Beijou atrás da minha orelha e sussurrou:
- Sei que às vezes somos imaturos e envolvemos você em coisas desnecessárias, e pedimos milhões de desculpas por isso. Tenho certeza que de certa forma essa viagem vai nos "consertar", e voltaremos como um casal melhor.
Me desgrudei do abraço e voltei a me deitar, respirando fundo para processar a ideia mais maravilhosa do ano.
- Não tem problema nenhum, pai. Acho que isso faz parte. Quanto tempo vão ficar lá?
- Duas semanas, no hotel mais luxuoso. Mas essa parte é surpresa, eu não contei nem do nosso destino.
- Então mamãe não sabe que vai para Londres? - Perguntei.
- Não.
- Nossa, ela vai desmaiar no aeroporto.
- Eu peguei um papel que guardo desde quando nos casamos. Aqui tem todos os votos que fiz naquele dia, desde "prometo amá-la e respeitá-la" até o "eu aceito" - ele colocou o papel em minha mão. Estava com algumas manchas que demonstrava que já era um pouco velho, e pequenos rasgados nas laterais. - Tem algumas palavras minhas.
- Uau, você mesmo escreveu?
- Sim. Vou falar essas mesmas coisas pra ela no meio da Torre de Bridge. Acha que ela vai gostar? - Li lentamente aquelas frases amorosas e apaixonantes. Parecia que um famoso escritor tinha feito aquilo, não meu humilde pai, Ray Steele.
- Claro que sim! Nossa, vocês vão tipo, se atualizar, dar um upgrade. Espero que aproveitem muito!
E ficamos mais uma hora conversando sobre a bendita viagem. Mamãe já tinha ido dormir, estava cansada depois de um dia inteiro fazendo suas esculturas que enfeitam salas de casas em todo o país. Eu e papai separamos algumas fotos antigas dele com mamãe, e todas eram realmente fofas. Tinham até da época em que os dois eram adolescentes. "Perdidos e pervertidos", ele dizia enquanto ríamos das poses cômicas. Em meio a alguns pensamentos me deixei levar pelo sono, e só lembro de alguém desligando a TV e o abajur. Um beijo leve foi marcado em minha bochecha, e a porta se fechou.

nhonhonho capítulo a+. hanelle divando mais uma vez <3 /giu
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